Visite: O Blog Anômalo de Salmerón
Divinópolis, ano de Dois Mil e Cinqüenta.
Passava por ali, avenida Sete de Setembro com os número alterados, não eram os mesmos de minha adolescência. Minha nostalgia era a cada olhar mais constante, tão prejudicial aos olhos quanto esses velhos cartazes de anúncios sobre diversões contestáveis. Porém um me repreendia, como fazia na adolescência. Era um anúncio de um circo, e me fascinava como na infância.
Diante daquele cartaz de tonalidade amarela, abandonado pelo tempo como todos meus sonhos, minha memória me surpreende de uma forma que há muito tempo não fazia.
O Anômalo Circo de Aberrações do Dr. Salm
Manchas no cartaz único de papel barato juntamente com meus velhos problemas de visão e desdém me impediram de ver o resto do nome do Dr. circense pouco modesto. E daí? Eu já tinha anotado o endereço, e atualmente era tudo que eu precisava: rir um pouco de aberrações, rir da cara de gente pior do que eu. Como conseguem isso? São mais desprezíveis que eu! Hahahah.
Fui. Hoje em dia minhas rugas são compensadoras, me dão o direito de embarcar gratuitamente pelo transporte público.
Cheguei. Com certa inveja de Salm, que graças a uma vida bem sucedida tem o direito de ser tratado gratuitamente como "Dr.". Inveja normal, eu pensava. E ainda imaginava o tamanho da inveja que cada aberração teria de mim! Bom, chegara a hora de finalmente entrar. Parei de observar a lona que sugeria mais um circo normal, parei de imaginar as aberrações infelizes que me fariam feliz.
Entrei. E por sinal, só eu entrara. Pela primeira vez na vida me sentia abismado e sozinho de tal forma. Definitivamente aquele circo não me faria rir. O medo me fazia andar para frente, olhar para os lados, ouvir cada grito e quase chorar. Sentei na platéia, e acabei ganhando uma companhia, um velho e magro homem com óculos fundo de garrafa viera sentar ao meu lado. Um homem feio, que por mais estranho que seja, não era uma aberração.
Ele não se assustava como eu, me descrevia cada pulo de anões transformistas sobre cama de pregos com uma perfeição tão assustadora quanto cada um daqueles 600 quilos dos incríveis-homens-gêmeos-siameses com obesidade mórbida que não saíam da cama há 23 anos.
Eu pensava: "Deve ser o único cara do mundo que se interessa por coisas tão bizarras. Esse cara nunca deve ter tido um amigo. Esse cara é uma verdadeira aberração. Esse cara na certa não é médico. Fazer o quê? É melhor juntar-me à ele para evitar qualquer confusão".
-Prazer, meu nome é Igor e tenho 60 anos.
Dessa vez ele realmente se assustara. E minha expressão resolveu acompanhar a dele. Éramos dois velhos no limite da emoção, cada infarto parecia inevitável.
Dr. Salm parecia estar vendo o fim mais próximo que eu. Gastava todas as suas forças pronunciando seu nome: Salmerón.
Sobrenome espanhol lá do interior de Minas. Velho como um velho amigo.
Mas os infartos não vieram, apenas confirmações das minhas previsões de adolescente.
Salmerón fora reprovado incríveis 6 vezes em matemática, até que decidira desistir dessa vida escolar que não era lá nosso ponto forte. Eu, até consegui superar o colegial, mas ainda não tinha o título de Doutor. E como ele tinha?
-... e foi assim que acabei me mudando para a Europa Oriental, lugar de vida e diplomas fáceis, como sempre quis. Comprei sim. Comprei diplomas, uma velha tenda e resolvi sair por ai contratando gente como eu. Sempre quis formar uma família como essa. Sou chamado de Dr., tenho uma família perfeita e tenho dinheiro. Só me falta aquela formação em matemática.
-E você veio aqui para consegui-la? -Perguntara eu.
-Acredito que não seja mais possível.
-É, acho que é um pouco tarde.
-Não é por isso. Olhe para aquela jaula.
Ele apontou seu dedo para cima, numa espécie de altar.
-Eis o membro mais importante de minha família, a minha maior conquista!
E eu continuei não entendendo o que aquela mulher-macaca tinha de tão importante.
-Eis a mulher-macaca! Que antes fazia alguns bicos como professora de matemática... Aquela mesmo dos nossos 17 anos. Ela realmente foi útil à minha formação como profissional e pessoa. Há anos venho lucrando com toda sabedoria dela. Como uma pessoa pode se transformar de professora de matemática para mulher-macaca? É um incrível exemplo de perseverança e evolução.
-Então o que você faz aqui? -Eu ainda insistia na pergunta.
-Não sei, acabei parando por aqui. Acho que foi para morrer. Acho que não tenho mais o que fazer aqui, agora me sinto completo. Acabo de reencontrar a amizade e mereço morrer.
Salmerón acabara de morrer.
-Te entendo perfeitamente. Mas ainda preciso de um emprego.
-Faça o seguinte, agora que me tornei um homem-zumbi, assuma meu título de Dr. e seja proprietário deste circo.
-Feito, começo amanhã.
Só então pude entender, que ao menos um dos meus sonhos se realizara. Agora eu era Doutor, trabalhava junto a meu amigo Salmerón e seu circo ganhava mais uma aberração: um homem de 60 anos incapaz de rir.
O Anômalo Circo de Aberrações do Dr. Salm
sábado, julho 26
Postado por Igor;20 às 12:59
Assinar:
Postar comentários (Atom)

6 comentários:
E Igor cada dia escreve melhor, seja sobre uma vida no cirso, seja falando sobre banhos.
Ah, inveja de você, jovem.
:*
Igor parabéns.
Adorei a mulher-macaco, me lembra uma certa professora querida.
Quem sabe você não acrescenta uma professora de química mutante e uma outra com uma segunda cabeça na testa!
Abraços
Existem fatos em nossas vidas que devemos guardar para contar apenas aos nossos filhos ou em nossos livros.
É a melhor merda sua que eu já li.
Isso sim é true.
Mto true.
Você escreve muito bem, Igor! =)
(amiga da Thaís)
Abraço.
hei.
Só agora que descobri você que já me descobriu há lagum tempo.
Acabo de te adicionar ao planeta de blogs de divinópolis.
http://planetaki.com/divinopolis-blogs
Tudo que você publicar aparece lá.
gostei desse conto, apensar de ter lidi spó ele e portanto não poder falar sobre o blog em si.
http://quixotesco.wordpress.com/2008/06/20/planeta-divinopolis-blogs/
Se estiver a fim do selo passa lá.
no mais com tempo leio mais e decido se volto sempre ou não.
Postar um comentário